Quarta, 17 de Julho de 2024
  • Quarta, 17 de Julho de 2024

Irã e China levam a número recorde de jornalistas presos ao redor do mundo

As diferentes formas de perseguição a jornalistas no mundo refletem os sistemas políticos locais

CORREIO DO ESTADO / FOLHAPRESS


Reprodução

Ante a multiplicação de casos documentados no Irã e na China, o número de jornalistas encarcerados devido ao exercício da profissão ao redor do mundo atingiu novo recorde, mostram relatórios de duas organizações que monitoram o assunto publicados nesta quarta-feira (14).

Levantamento do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) revela que, até o último dia 1º, 363 profissionais da imprensa estavam presos –  aumento de 20% em relação ao ano anterior. Já relatório da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) aponta o número de 533.

A diferença está nas metodologias, mas as duas organizações coincidem ao afirmar que o aumento tem relação direta com a erosão de regimes democráticos e ao chamar a atenção para nações do Oriente Médio e da Ásia como pontos sensíveis.

O Irã, palco de uma convulsão social após a morte da jovem curda Mahsa Amini há três meses, recebe destaque nos levantamentos. O cenário para a liberdade de imprensa já era precário na nação, dominada por uma teocracia, mas a situação degringolou em meio à repressão aos atos.

O CPJ calcula que 62 jornalistas estejam detidos no país, a maior cifra desde que o monitoramento começou a ser feito, há três décadas. A maioria seria de mulheres –22 dos 49 detidos desde o início dos atos–, e o comitê chama a atenção para a detenção de profissionais curdos –ao menos nove.

Já a RSF afirma que seriam 47 os profissionais da imprensa detidos no país, que tem à frente do regime o ultraconsevador presidente Ebrahim Raisi e como líder supremo o aiatolá Ali Khamenei.

O regime comunista da China voltou a receber destaque nos relatórios. O CPJ calcula que 43 jornalistas estejam presos na nação asiática e salienta o encarceramento de profissionais uigures, perseguidos não apenas pela profissão, mas também por pertencerem à minoria étnica muçulmana que predomina na província de Xinjiang.

A RSF coloca a China como líder no encarceramento de profissionais da imprensa, com 110 até o início deste mês. As duas organizações afirmam que o número de detidos no país não apresentou alta neste ano, mas destacam cautela na justificativa: 'Isso é menos um sinal de melhora e mais uma demonstração da opressão, da vigilância e da censura prévia cada vez maiores', diz a RSF.

A situação é, em partes, semelhante ao que ocorre na América Latina, uma das regiões mais violentas para jornalistas no mundo. Ainda que quase metade dos profissionais da imprensa mortos no último ano esteja nas Américas –38 segundo o CPJ e 57 de acordo com a RSF–, essa parte do globo observa cifras menores de encarceramento da categoria.

'Houve um aumento na criminalização do jornalismo na região, muitas vezes com leis que cerceiam a atividade', diz à reportagem a coordenadora do CPJ para América Latina e Caribe, Natalie Southwick. Com o intenso assédio judicial, muitos jornalistas seriam sujeitos à autocensura ou mesmo ao autoexílio, o que faria refluir números de presos.

Segundo a RSF, por exemplo, o México é o pior país para jornalistas nesse aspecto, com 11 mortos, seguido por Ucrânia (8) e Haiti (6). O Brasil é lembrado no material com a morte do jornalista britânico Dom Phillips, na Amazônia, em junho. Já nos dados do CPJ, a ordem seria: Ucrânia (12), Haiti (5) e Filipinas e México (3 cada um).

As diferentes formas de perseguição a jornalistas no mundo refletem os sistemas políticos locais, mas também as histórias regionais, aponta Artur Romeu, diretor da RSF na América Latina.

'Autocracias nas quais se concentram os casos de encarceramento normalmente têm uma censura de Estado institucionalizada, com marcos legislativos retrógrados que inibem a liberdade de expressão.'

No caso da vizinhança brasileira, a violência estrutural ganha destaque. 'Profissionais que exercem a função de controle social do poder, como jornalistas, veem-se sujeitos a enfrentar esse tipo de retaliação, que também é impulsionada por governos que alimentam um cenário de hostilidade permanente contra jornalistas, com discursos públicos orientados para a crítica ao papel da imprensa.'

A diferença nos números das organizações está relacionada aos critérios adotados para contabilizar o encarceramento.

O CPJ contabiliza apenas jornalistas sob custódia do governo e não inclui os que desapareceram ou são mantidos em cativeiro por atores não estatais. A RSF, por sua vez, inclui cifras não oficiais, como jornalistas sequestrados por forças de segurança e cujos dados foram verificados junto a parentes ou meios de comunicação profissionais.



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