Terça, 21 de Maio de 2024
  • Terça, 21 de Maio de 2024

Jantando democracia

A aproximação de opostos iniciada em um simples jantar não só surtiu o efeito desejado, como garantiu a democracia, ao unir posteriormente16 partidos em apoio no segundo turno, ganhando

CORREIO DO ESTADO / LUIZ FERNANDO MIRAULT PINTO


Fim de 2021. Notícias dão conta de um jantar que ocorreria por conta de advogados e juristas “defensores da democracia” como tentativa esvanecer a polarização política do momento e uma maneira de contornar as contradições entre candidatos, eleitores e representantes da vida política com perfis distintos e orientações ideológicas diversas.

Na época, isso me fez lembrar um filme icônico dos anos 1960: “Adivinhe Quem Vem para Jantar”.

O enredo era em São Francisco (EEUU). Um casal rico e conceituado estava chocado ao saber que a filha embevecidamente apaixonada de um negro.

Eles noivariam após um jantar de apresentação às suas respectivas família. Os pais Tracy & Hepburn e os noivos Houghton & Poitier (um médico negro) se encontram e aqueles tentam descobrir algo desabonador no pretendente, mas só descobrem nele qualidades morais e profissionais acima da média.

Nos Estados Unidos (1967), as uniões inter-raciais não eram bem acolhidas e as respectivas famílias tinham restrições ao casamento única e exclusivamente por conta das diferenças étnicas, apesar de atributos julgados satisfatórios.

Quando se sustentavam preconceitos em detrimento do julgamento da sociedade (ainda hoje continuam), mas com um espectro antidemocrático mais largo, como diferenças raciais, econômicas, sociais, de naturalidade e de gênero.

Os relatos do jantar descreveram que não sobraram lugares no evento cujo cardápio real seria “jantar a terceira via”, ao se fazer o anúncio de uma parceria inusitada, estratégica e aglutinadora, unindo a esquerda progressista com o centro liberal, já que os organizadores asseguravam que não haveria oposição quanto aos participantes que se diziam liberais.

Foi uma oportunidade para aparar arestas, mostrando que apesar de se digladiarem politicamente em diferentes e opostos campos ideológicos em outros tempos lembraram que foram apenas adversários, com muito respeito, jamais inimigos, e capazes de fazer uma aliança para a retomada da democracia de fato.

O sucesso do encontro reforçou a agenda na continuação a outros eventos com políticos simpatizantes ou dispostos a somar opiniões, quando um partido oficializou a filiação tão aguardada de um tucano renitente em outro partido, abrindo caminho para a formalização de sua candidatura como vice à Presidência da República de um adversário político de outra época, então líder nas pesquisas de opinião, o que ensejaria a costura na aliança política democrática.

Ainda assim, acreditava-se que uma terceira via enrustida, conservadora, teria sucesso em uma empreitada “natimorta”, como intenção de desviar o foco da chamada polarização, assim reunindo candidatos inexpressivos, sem traquejo político ou identidade popular, mas que pleiteavam ocupar o mais alto cargo do Executivo exatamente por considerarem que qualquer um estaria capacitado, a exemplo do comediante ucraniano, do aventureiro venezuelano que se autointitulou presidente, com apoio fake internacional, ou mesmo um alferes lunático, rebelde e reformado.

O que se sabe é que a partir dessa expectativa gastronômica, quando se dizia que frutos do mar não combinariam com certas hortaliças, quando na verdade tal relação passou a ser um dogma culinário na busca da democracia.

Não existia polarização política e, sim, ideologias em oposição, pois no segundo turno eleitoral tanto a terceira via, a abstenção ou os eleitores omissos dariam o peso para um dos lados, reforçando as divergências de opinião.

A aproximação de opostos iniciada em um simples jantar não só surtiu o efeito desejado, como garantiu a democracia, ao unir posteriormente16 partidos em apoio no segundo turno, ganhando.

Ainda assim, os dissonantes políticos e apostadores vivos, remanescentes da terceira via, os rentistas e o mercado apostavam na inviabilidade da montagem de um governo, tipo arca de Noé, muitos braços e pernas, muitas cabeças, interesses e inveja.

Pois bem, foram criados 37 ministérios, contemplando várias posições políticas, acomodando todos aqueles que mostraram interesse em ajudar o País a dar valor à alimentação dos pobres.

Concluímos então que para um bom relacionamento em todas as áreas sociais, principalmente na política, um evento gastronômico não só abre a apetência democrática, como promove hábitos, comportamentos e atitudes civilizadas, em contradição àquelas noticiadas sobre farofadas, churrascos, pizzas deglutidas em calçadas, mal-estar com camarões miúdos e lanchinhos de pão com leite condensado.

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