Terça, 16 de Abril de 2024
  • Terça, 16 de Abril de 2024

Dólar alto e guerra na Ucrânia têm encarecido preço do pão francês na Capital

Preço do quilo do pão francês beira os R$ 20 em padarias de Campo Grande

GUILHERME CORREIA / CAMPO GRANDE NEWS


Pães franceses em padaria de Campo Grande. (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

O preço do quilo do pão francês já tem beirado os R$ 20 em padarias de Campo Grande e os principais motivos para o encarecimento deste alimento, indispensável no café da manhã dos brasileiros, são a alta no dólar e até mesmo a guerra no leste europeu, protagonizada pela Ucrânia e Rússia.

A Pão e Tal, na Rua Euclides da Cunha, cobra R$ 21,90 pelo quilo, mas os valores mais baixos encontrados pela reportagem beiram os R$ 15.

Na Fornello Pães e Conveniências, o preço do quilo é cobrado a R$ 19,90.  Já a Panificadora Pão da Vida, no Bairro Vilas Boas, vende a R$ 18,90. No Bairro Coronel Antonino, a Padaria Pães Dourados cobra pelo quilo do produto R$ 14,99.

Santina Silva, de 44 anos, é proprietária da Maria’s Panificadora, na Rua José Antônio, na Vila Rosa Pires. O estabelecimento fabrica diferentes produtos, incluindo o pão francês, cujo quilo custa R$ 16,99.

“Antes, há alguns meses, estava R$ 14,99, mas a farinha subiu, o fermento subiu. A farinha de pão subiu muito, e tem que colocar o valor do gás e mão de obra. A gente produz tudo aqui, a gente não compra nada congelado, e fazemos desde os salgados até a produção dos pães'.

Segundo ela, a produção para um período do dia exige um pacote de 25 quilos de farinha, que custa cerca de R$ 120. Além disso, o pacote de meio quilo de fermento custa R$ 22 e rende aproximadamente três produções. “O pão para a tarde é produzido de manhã, e o pão da manhã é feito na noite anterior'.

A economista Andreia Ferreira, do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), afirma ao Campo Grande News que o pão é um dos produtos cujo preço está atrelado ao dólar. “Cada produto, seja um insumo ou produto acabado, que tenha preço atrelado de alguma forma, vai repercutir com base na moeda norte-americana'.

Nesse caso, especialmente, há um agravante, pois não há capacidade de produção suficiente de trigo para processamento, e a gente sempre tem de importar. E aí o Brasil sempre paga todas as taxas de importação que estão incluídas nesse trigo que está sendo processado aqui', explica.

Ferreira ressalta que o trigo, produto chave para a produção dos pães, tem como um dos principais exportadores Ucrânia e Rússia, países que estão em guerra há mais de um ano. Juntos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, os dois países exportam cerca de 210 milhões de toneladas do grão, 30% do comércio mundial.

“A gente não tem nem perspectiva de como vai terminar essa guerra. São países produtores, mas que também dependem, como nós dependemos, por exemplo, de fertilizantes ou outros agrotóxicos. Então, sempre repercute quando há uma variação'.

Especificamente em relação ao dólar, ela destaca o aumento na cotação da moeda nos últimos anos. “E a gente só tem visto, pelo menos ultimamente, somente variações para mais, da moeda norte-americana, em relação ao real'.

Dados de 2019 do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio Exterior e Serviços), que foi aglutinado pelo Ministério da Economia, mostram que a Argentina possui o maior valor de importação para o Brasil, cerca de 1,24 bilhão de dólares.

O economista Eugênio Pavão compara com o aumento do preço de medicamentos, gasolina ou eletroeletrônicos, todos atrelados à alta do dólar. “Temos aumento no princípio ativo, ou seja, o insumo importado. Combustíveis também são afetados por altas na moeda americana, inflacionando o setor de transportes ou o setor de eletroeletrônico, que também tem forte peso nas importações de insumos, encarecendo produtos como televisores, celulares, computadores, dentre outros'.

Ele relata que o trigo já teve produção ampla em solo brasileiro, mas acabou perdendo espaço para a soja. “O trigo já teve boa produção no País, até mesmo em Mato Grosso do Sul, mas foi desprestigiado para dar espaço para a soja, mais adaptada ao Centro-Oeste, dentro da expansão da fronteira agrícola brasileira'.

Para manter a produção de pães, massas e derivados, importamos o produto da Argentina e de outros produtores menores, pagando em dólar e revendendo para o setor de massas alimentícias, que sofre para manter o preço, e o aumento da inflação.'

Segundo ele, para que a população não sofra tanto com o preço, é preciso manter as reservas públicas de dólares. “É necessário aumentar os juros para manter as divisas no Brasil. Mas com aumentos dos juros americanos, faz necessário aumentar os juros a níveis de dois dígitos, o que estrangula a economia'.



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