Quarta, 17 de Julho de 2024
  • Quarta, 17 de Julho de 2024

Versão teatral de 'Dom Casmurro' transcende o dilema do adultério

Versão teatral de 'Dom Casmurro' transcende o dilema do adultério feminino e propõe atualizações a partir de questões identitárias e de gênero; a atriz e diretora Lígia Prieto fala sobre a experiência de adaptar o clássico de Machado de Assis

CORREIO DO ESTADO / CAUê REIS


O Grupo Casa: a partir da esquerda, Lígia Prieto, os músicos Giulia Schroder, Léo de Castro e Vinicius Rocha, a iluminadora Kelly Figueiredo (sentados), Amanda Pessoa, Antônio Júnior e o técnico de vídeo Fernando Averaldo - NELSINHO NICKS

A partir de 1861, com “Hoje Avental, Amanhã Luva” e “Desencantos”, Machado de Assis (1839-1908), aos 22 anos, ainda sem a celebridade de seus contos e romances, mas já com uma certa moral enquanto cronista e ensaísta, aventurou-se pela dramaturgia teatral.

Suas escritas para os palcos somam 13 peças, quase todas criadas até 1866, e, desde sempre, são consideradas a parte medíocre de sua lavra, inferior até mesmo aos poemas legados pelo bruxo do Cosme Velho. Já a prosa do autor é um banho de talento, argúcia e reinvenção praticamente de ponta a ponta.

E, no topo da vitrine estrelada do autor, que superou a origem pobre, o preconceito racial e a epilepsia, está “Dom Casmurro” (1900), que rivaliza com “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) pelo posto de maior romance de Machado e, há quem diga, de toda a literatura brasileira.

Com o ciúme doentio de Bentinho e os “os olhos de cigana oblíqua e dissimulada” de Capitu, o escritor forja passaporte para viajar, uma vez mais, na sua profunda observação da natureza humana, amealhando referências mil que vão de Goethe a Shakespeare.

Do bardo inglês, é “Otelo” quem lhe inflama a inspiração; aliás, melhor dizendo, caberia a Iago, alferes do personagem mouro que dá nome à peça, o papel de magnetizar o eu lírico de Bento de Albuquerque

Santiago, o advogado carioca de 54 anos que, em primeira pessoa, narra as agruras por que vai passando por fortuna da dúvida cruel em torno do suposto adultério da amada.

O tempo narrativo é psicológico, há recuos autobiográficos do personagem que não impedem divisar com certa facilidade e em blocos a trajetória de Bentinho.

A eficiência no psiquismo, na metalinguagem e na crítica social fazem de “Dom Casmurro” um ponto alto da literatura realista, com tradução para, pelo menos, outros 15 idiomas desde os anos 1930 e exitosas versões para o cinema, para HQs e para o teatro.

Na entrevista a seguir ao Correio do Estado, a atriz e diretora Lígia Prieto fala sobre a experiência de encenar “Dom Casmurro” sob a patente do Grupo Casa, que a artista pilota ao lado de Kelly Figueiredo.

Com apenas dois atores em cena, os paulistas Amanda Pessoa e Antônio Júnior, a peça traz Lígia sem aparecer no palco, mas com duplo crédito na montagem.

Além da direção, é ela quem também assina a adaptação do texto original, que pôde ser vista em três sessões no Sesc Cultura na semana passada. E que atualiza a sofisticada mordacidade machadiana com dilemas bem contemporâneos e tão ou mais cruéis na vigência da pauta atual, a exemplo das questões raciais e de gênero.

Por que levar “Dom Casmurro” ao teatro em 2022?

Embora tenha sido escrito em 1899, o texto é absurdamente atual. Infelizmente. Por demérito da sociedade e por mérito da genialidade de Machado.

Trazer a literatura realista para a cena é um prazer, é uma ampliação do cotidiano que nos atravessa e, como um espelho, nos mostra nossos abismos. Pode ser que por essas questões ele tenha tido uma recepção tão boa no Festival Fema (SP), conquistando o prêmio de melhor espetáculo.

Quais características e temas destacaria no texto?

A relação principal entre Bentinho e Capitu, sem dúvida, é o que mais nos grita, a objetificação dessa mulher livre que vai sendo destruída durante a história. E o que a gente amplia mais ainda na nossa versão também são os questionamentos sobre o racismo.

Nesse ponto, trazemos para a cena a realidade própria de Machado, neto de escravos alforriados, contrapondo a própria cena ficcional com dados documentais do escritor.

Como se deu a adaptação para a dramaturgia teatral?

Eu gosto muito de adaptar a literatura brasileira. Já adaptei “Vidas Secas” [romance de 1938 de Graciliano Ramos], “O Alienista” [conto de Machado de 1882] e agora “Dom Casmurro”. Tem uma característica específica nesses romances, eles são muito detalhados.

Os autores brasileiros são impecáveis nesse ponto, o que facilita a construção da cena teatral. É como se levantássemos as personagens e conversássemos com elas. É muito pontual, nessa adaptação temos um enxerto de textos de [Anton] Tchekhov [1860-1904] e também de anúncios de vendas de escravos do mesmo período da escrita do texto.

Nesses termos, qual a aresta eventualmente mais trabalhosa ou desafiadora na passagem da página para o proscênio?

Muito, a teatralidade específica da cena, essa explosão do cotidiano. A literatura realista é um roteiro de novela pronto. Agora, acredito que a diferença está nessa ampliação desse cotidiano para que nos convida o teatro.

Poderia comentar o que vocês chamam de “diálogo aberto e direto do elenco com os caminhos dos personagens e com a plateia”? 

Visto que trazemos também fatos reais e dados do mesmo período da história e da escrita do autor, o elenco apresenta textos diretos para a plateia, como pequenas pílulas de informações que conduzem a história principal.

Os personagens [do romance] quase todos estão ali. Embora sejam somente dois atores em cena, eles se misturam fazendo várias personagens, é uma brincadeira que funciona bem e, por incrível que pareça, a plateia não se perde, a história segue conduzida para o fim trágico de “Dom Casmurro”.

Como o elenco e toda a equipe lidaram com o processo criativo?

Inicialmente à distância total. O espetáculo tem música ao vivo, e quando aconteceu a estreia, em 2020, eu acabei não conseguindo estar presencial por conta da pandemia.

Agora, estamos retomando o espetáculo e amarrando de vez ele no repertório do Grupo Casa. O texto é delicado e forte. É emocionante fazer parte.

O elenco principalmente, a cada passo do processo, encontra um novo lugar de leitura dessa obra que já lemos há tanto tempo. Conseguimos tirar muitos questionamentos dessa história e trazemos diretamente para as nossas vidas e o nosso dia a dia.

Quando começaram o projeto da peça?

Foi escrito em outubro de 2020, e em novembro de 2020 já foi premiado na sua apresentação de estreia. Dois anos depois, estamos olhando para ele com desejo de um novo nascimento, com vida longa e uma estrada carinhosa.

E quanto ao teu envolvimento pessoal com a obra de Machado?

Eu sou encantada por Machado. Quando o Antônio Junior me convidou para escrevê-lo, eu reli e chorei outra vez. Todas as vezes que o li na vida, eu chorei. Sinto raiva do caminho de Capitu, odeio Bentinho.

Acho cruel e real demais, a cada contato com a obra, me arranca um pedaço por ser mulher.

Como vê a narrativa do romance e de outras formas literárias ao ser apropriada pelos elementos expressivos da cena teatral?

Acho incrível. Eu gosto muito da palavra “ampliação”, se pudéssemos ampliar o cotidiano, o que teríamos?

Acredito que essa é uma proposta do teatro, e qualquer gênero literário cabe nessa brincadeira, causando um estranhamento da obra e uma possibilidade para outros questionamentos e criação de pensamentos.

A arte faz o povo pensar. E trazer histórias tão bem contadas para diferentes gêneros artísticos amplia a possibilidade de chegar em pessoas diferentes, em lugares diferentes, de formas diferentes que vão acessar lugares diferentes de cada um.

Você pode ler o livro, causará algumas sensações. Ao ver a peça, terá outras, que se misturam à existência e à força do elenco, que nesse espetáculo é formado por maravilhosos intérpretes.

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